Para responder às questões de 07 a 11, leia o primeiro poema da seção intitulada “Homenagem a Ricardo Reis”, da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), publicado originalmente em 1972 no livro Dual.
Não creias, Lídia, que nenhum estio¹
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiamos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto²
Que o não-vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos³ cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
(Sophia de Mello Breyner Andresen. Coral e outros poemas, 2018.)
¹estio: verão.
²rasto: rastro.
³Kronos: do grego khrónos, “tempo”. Na mitologia grega, titã do tempo.
Com a intenção de obter maior expressividade, o eu lírico lança mão de uma construção pleonástica no seguinte verso:
“E no redondo círculo da noite” (2ª estrofe)
“Por nós perdido possa regressar” (1ª estrofe)
“Para aquele que hesita.” (2ª estrofe)
“O tempo apaga tudo menos esse” (3ª estrofe)
“Não creias na demora em que te medes.” (4ª estrofe)
Resolução
O pleonasmo é a repetição de uma ideia por meio de palavras que apresentam uma informação redundante. Quando essa repetição é intencional e busca dar mais expressividade ao texto, ela funciona como figura de linguagem.
No verso “E no redondo círculo da noite”, o adjetivo “redondo” expressa uma característica já contida no significado de “círculo”: todo círculo é redondo. Portanto, a expressão “redondo círculo” repete a mesma ideia, o que confirma a resposta indicada.
No poema, essa repetição não é tratada como um erro: ela reforça a imagem da forma circular atribuída à noite, dando destaque à maneira como o eu lírico representa a passagem do tempo.