O ponto de partida da filosofia autêntica encontra-se no espanto, na admiração ou na angústia. Uma fissura manifesta-se na existência; é preciso cimentar a brecha da dúvida. O pensamento vem e põe ordem na desordem. Chamam-se filosofia os primeiros princípios que traduzem a justificação que a pessoa se dá sobre seu lugar no mundo. O que a reflexão procura é sempre um estado de paz, princípio de uma orientação ontológica em fé da qual o homem se encontra à vontade na sua paisagem. Neste sentido, a função da filosofia não é diferente da do mito. O mito é a primeira forma desta adaptação espiritual da comunidade humana ao seu contorno. O pensador, uma vez rompida a consciência coletiva, retoma-o por sua conta, com os meios acrescidos da reflexão.
(Georges Gusdorf. Mito e metafísica, 1979. Adaptado.)
Com base no excerto, a relação entre mito e filosofia pode ser compreendida como a
superação do saber mitológico enquanto forma de preservação do consenso comunitário.
negação da validade de métodos racionais para as explicações ontológicas.
articulação simbólica entre diferentes formas de responder ao conhecimento científico.
substituição progressiva da fabulação mítica pela análise conceitual sistemática.
rejeição filosófica de narrativas pré-reflexivas como expressão do irracional.
Resolução
Segundo o texto, mito e filosofia têm uma função semelhante: ajudar o ser humano a compreender seu lugar no mundo e a orientar sua existência. O mito realiza essa função por meio de narrativas simbólicas compartilhadas pela comunidade, que dão sentido à realidade. É a construção dessas narrativas que a alternativa chama de “fabulação mítica”, sem que isso signifique uma simples mentira.
A filosofia surge quando essas explicações deixam de ser suficientes e passam a despertar dúvidas. O pensador procura, então, compreender a realidade por meio da reflexão, formulando conceitos e examinando os argumentos que sustentam suas explicações. A expressão “análise conceitual sistemática” indica esse esforço de organizar as ideias e investigar suas relações de maneira fundamentada.
Assim, a “substituição progressiva da fabulação mítica pela análise conceitual sistemática” corresponde à mudança no modo de buscar explicações: das narrativas coletivas para a investigação reflexiva. Isso não significa uma ruptura completa nem o desaparecimento dos mitos. Ao afirmar que o pensador retoma essa tarefa “com os meios acrescidos da reflexão”, Gusdorf destaca que a filosofia mantém a busca de orientação antes realizada pelo mito, mas modifica os meios utilizados para realizá-la.