No ano seguinte, o Ateneu revelou-se-me noutro aspecto. Conhecera-o interessante, com as seduções do que é novo, com as projeções obscuras de perspectiva, desafiando curiosidade e receio; conhecera-o insípido e banal como os mistérios resolvidos, caiado de tédio; conhecia-o agora intolerável como um cárcere, murado de desejos e privações.
(Raul Pompeia, O Ateneu. 7ª. ed. São Paulo: Ática, 1980, p. 98.)
Com base no excerto que inicia o capítulo VIII do romance de Raul Pompéia e no seu subtítulo – crônica de saudades –, é correto afirmar que a obra é
um relato, em primeira pessoa, de experiências coletivas e íntimas, no qual o protagonista mostra aspectos da realidade social, valorizando o sistema escolar e prisional.
um romance de formação, no qual o protagonista revela condutas e intrigas no ambiente escolar, com elogios à pedagogia corretiva e aos valores morais da burguesia.
uma narrativa memorialista de experiências vividas num internato, na qual o protagonista revela aspectos do sistema educacional da época, com críticas à hipocrisia burguesa.
um relato saudosista de experiências vividas no internato, no qual o protagonista mostra o poder de sedução e corrupção das amizades, com críticas à falsidade da burguesia.
Resolução
A resposta está correta porque O Ateneu é uma narrativa memorialista: o narrador e protagonista, Sérgio, relembra suas experiências como aluno de um internato. Os acontecimentos são apresentados a partir de suas lembranças e de sua avaliação do passado, e não como um registro impessoal.
No excerto, a primeira pessoa aparece em expressões como “revelou-se-me” e “conhecera-o”. Sérgio recorda como sua percepção do colégio mudou: inicialmente, o Ateneu era “interessante”, por despertar a curiosidade diante do novo; depois, tornou-se “insípido e banal”, pois já não havia novidade; finalmente, passou a ser “intolerável como um cárcere”. Essa sequência mostra a perda do encantamento com a instituição.
A comparação com um “cárcere” e a expressão “murado de desejos e privações” apresentam o internato como um espaço de repressão, que limita a liberdade dos alunos. No conjunto do romance, a crítica ao sistema educacional também atinge a sociedade burguesa: por trás da aparência de respeitabilidade e de formação moral, aparecem interesses, disputas de poder e comportamentos contrários aos valores defendidos. É essa distância entre o discurso moral e a prática que caracteriza a hipocrisia burguesa mencionada na resposta.
O subtítulo “crônica de saudades” reforça o caráter de recordação da obra, mas não significa que as lembranças sejam apenas agradáveis. A memória de Sérgio recupera também o sofrimento e a desilusão, permitindo uma visão crítica da educação recebida.