
Paul Cézanne. A montanha de Sainte-Victoire, 1904.
Assim também o gênio de Cézanne consiste em fazer com que as deformações de perspectiva, pela disposição de conjunto do quadro, deixem de ser visíveis por si mesmas na visão global e contribuam apenas, como ocorre na visão natural, para dar impressão de uma ordem nascente, de um objeto que surge a se aglomerar sob o olhar. (...) O desenho deve então resultar da cor, se se quer que o mundo seja restituído em sua espessura, pois é uma massa sem lacunas, um organismo de cores, através das quais a fuga da perspectiva, os contornos, as retas, as curvas instalam-se como linhas de força, pois é vibrando que a órbita do espaço se constitui.
Merleau-Ponty. A dúvida de Cézanne.
Merleau-Ponty, filósofo francês do século XX, dedicou um espaço importante em sua filosofia à reflexão sobre a pintura e, em particular, à obra de Paul Cézanne. Com base na proposição do filósofo e na observação da tela do artista, é correto afirmar que cabe à expressão por meio da pintura
encontrar uma forma de representação pictórica que se sobreponha ao mundo visível.
retratar a realidade, explicitando suas deformações de perspectivas.
fazer aparecer a espessura do mundo, especialmente pela ênfase à cor.
deixar o mundo se revelar, sem o recurso técnico a qualquer mediação.
destacar a cor sobre o desenho, para fazer aparecer as perspectivas.
Resolução
A alternativa está correta porque, para Merleau-Ponty, a pintura pode mostrar como o mundo se apresenta à nossa percepção. A expressão “espessura do mundo” se refere à presença das coisas com seu volume, sua profundidade e suas relações no espaço, e não apenas como figuras delimitadas por contornos.
O trecho afirma que as “deformações de perspectiva” contribuem para a impressão de uma “ordem nascente”. Isso significa que Cézanne não precisa seguir rigorosamente as regras de representação da profundidade: as alterações de perspectiva se integram ao conjunto e ajudam a mostrar as formas como se estivessem se constituindo diante do olhar.
A cor é fundamental nesse processo. Quando o filósofo diz que “o desenho deve então resultar da cor”, propõe que os contornos e os volumes surjam das relações entre as cores, em vez de dependerem de um desenho previamente delimitado. Na tela, as manchas verdes, amarelas e azuladas constroem a vegetação, as construções e a montanha. As diferenças entre essas cores organizam a paisagem e produzem a percepção de volume e profundidade.