Decretou então o ótimo Artífice que àquele ao qual nada de próprio pudera dar tivesse como privativo tudo quanto fora partilhado por cada um dos demais. Assim, pois, tomou o homem, essa obra de tipo indefinido, e, tendo-o colocado no centro do universo, falou-lhe nestes termos: ‘A ti, ó Adão, não temos dado nem uma sede determinada, nem um aspecto peculiar, nem uma função singular precisamente para que o lugar, a imagem e as tarefas que reclamas para ti, tudo isso tenhas e realizes, mas pelo mérito de tua vontade e livre consentimento. As outras criaturas já foram prefixadas em sua constituição pelas leis por nós estatuídas. Tu, porém, não estás contido por amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei, hás de predeterminar a tua compleição pessoal. Eu te coloquei no centro do mundo, a fim de poderes inspecionar, daí, de todos os lados, da maneira mais cômoda, tudo que existe.
Pico della Mirandola. Discurso sobre a dignidade do homem. In: PICO, Giovanni, Conde de Mirândola e de Concórdia. A dignidade do homem. 2ª. ed. Campo Grande: Solivros/Uniderp, 1999. Adaptado.
Elaborado em 1486, na região da atual Itália, o texto do humanista Pico della Mirandola apresenta algumas características do movimento renascentista, dentre as quais
a ética protestante e o espírito do capitalismo.
a perspectiva da evolução e do etnocentrismo.
a imortalidade do ser humano como pilar da construção da vida terrena.
o antropocentrismo pela ausência da referência divina.
a autonomia do ser humano como construtor de sua própria trajetória de vida.
Resolução
A alternativa está correta porque o texto apresenta o ser humano como capaz de escolher seus caminhos e construir sua própria trajetória, em vez de apenas cumprir um destino previamente determinado. Essa autonomia está ligada ao livre-arbítrio, isto é, à capacidade de decidir por vontade própria.
Pico della Mirandola estabelece uma diferença entre o homem e as outras criaturas: enquanto elas já possuem uma constituição fixada por Deus, o ser humano não recebeu uma forma de vida inteiramente definida. Isso aparece no trecho em que o Criador afirma que o homem realizará suas tarefas pelo “mérito de tua vontade e livre consentimento”. Assim, suas escolhas participam da construção de quem ele será.
Essa valorização da liberdade e das capacidades humanas é característica do humanismo renascentista. Ela também se relaciona ao antropocentrismo, entendido como a valorização do ser humano como centro das reflexões e dos interesses. Isso não significa, nesse texto, negar Deus: é o próprio Criador, chamado de “Artífice”, quem concede ao homem a liberdade de construir sua vida.