
Francisco Ruiz Gijón (1683-1720), Santíssimo Cristo da Expiação, popularmente conhecido como Cristo Cachorro. Escultura em madeira, 1682 (detalhe).
A partir da comparação entre a escultura Cristo Cachorro, de Francisco Ruiz Gijón, e o livro O Cristo cigano, de Sophia de Mello Breyner Andresen, inspirado por ela, depreende-se:
A escultura barroca Cristo Cachorro prenuncia os traços modernistas do livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma vez que a faca, metáfora central do poema, pensada a partir de um objeto do cotidiano, está indiretamente presente na escultura como o instrumento cortante utilizado para sua criação.
Tanto a escultura Cristo Cachorro, enquanto obra barroca, quanto o livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, obra modernista, revelam, na precisão dos detalhes anatômicos e na personalização do objeto faca, respectivamente, o desaparecimento da visão da arte enquanto ligação com o divino e a concepção da morte como fim absoluto.
Na precisão dos detalhes anatômicos e na concepção do Cristo como um ser humano perfeito e unido ao divino pela morte, a escultura Cristo Cachorro revela a visão barroca do mundo, enquanto o livro de Sophia de Mello Breyner Andresen revela seu traço moderno na despersonalização do humano, ao propor a faca e o amor como condutores da ação.
A elaboração metonímica do corpo do Cristo no Cristo Cachorro, atenta aos detalhes, revela uma antecipação de traços modernistas nessa escultura barroca, enquanto a comparação entre amor e morte no livro de Sophia de Mello Breyner Andresen revela os traços tardiamente românticos de seu estilo poético.
A precisão de detalhes anatômicos e o equilíbrio de traços alcançados pelo artista na elaboração da escultura Cristo Cachorro revelam a visão barroca da arte como vitória do humano sobre o divino, enquanto o livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, ao ocultar a imagem do cigano e resumi-la a uma voz em agonia, revela a concepção modernista de um mundo sem Deus.
Resolução
A afirmação está correta porque reconhece a ligação entre as duas obras, mas diferencia seus modos de representar a relação entre humanidade, sofrimento e morte: a escultura apresenta características barrocas, enquanto o livro realiza uma recriação poética moderna.
Na escultura, os músculos, as costelas e a expressão do rosto tornam o corpo de Cristo intensamente humano. A precisão anatômica e a dramaticidade da postura aproximam o sofrimento representado da experiência de quem observa a obra. Essa capacidade de comover o observador é uma característica importante da arte religiosa barroca.
Ao mesmo tempo, não se trata apenas de um homem sofrendo: a figura é Cristo, cuja morte tem um sentido divino de sacrifício e salvação. A convivência entre o corpo material e a dimensão espiritual, assim como entre a morte e a promessa de vida, expressa os contrastes próprios do Barroco. A perfeição humana mencionada na alternativa não significa ausência de sofrimento, mas a representação de Cristo em sua plenitude humana e divina.
Em O Cristo cigano, Sophia de Mello Breyner Andresen retoma a lenda de um escultor que mata um cigano para observar sua agonia e conseguir representar a morte de Cristo. Assim, a criação artística aparece ligada a um conflito perturbador: a produção da beleza passa pela violência praticada contra uma pessoa.
O traço moderno apontado pela alternativa está no deslocamento do protagonismo dos indivíduos para elementos que conduzem suas ações. A faca concentra a força da violência e da morte; o amor também aparece como uma força que move as personagens. Nesse contexto, “despersonalização do humano” não significa ausência de sentimentos, mas a perda da centralidade da vontade individual: os seres humanos deixam de parecer senhores absolutos de seus atos, enquanto o objeto e o sentimento ganham força na construção do poema.