iii. Busca
Pelos campos fora
Caminhava sempre
Como se buscasse
Uma presença ausente
“Onde estás tu, morte?
Não posso te ver:
Neste dia de Maio
Com rosas e trigo
É como se tu não
Vivesses comigo
[...]
É verdade que passas
Pela cidade às vezes
Nos caixões de chumbo:
Mas viro o meu rosto
Pois não te compreendo
És um pesadelo
Uma coisa inventada
Que o vento desmente
Com suas mãos frescas
E a luz logo apaga”
[...]
Sophia de Mello Breyner Andresen. O Cristo cigano.
É tão tenaz o desvio que a esquivança encobridora ante a morte exerce sobre a cotidianidade que, no ser-um-com-o-outro, seus ‘próximos’ ainda se empenham com frequência precisamente junto ao ‘moribundo’ para o persuadir de que escapa da morte e retorna em seguida à tranquila cotidianidade do mundo de suas ocupações. Tal ‘preocupação-com-o-outro’ pensa ‘consolar’ dessa maneira o ‘moribundo’. Ela quer devolvê-lo à existência, ajudando-o a encobrir ainda mais completamente sua possibilidade de ser mais própria e irremetente. A gente se ocupa dessa maneira de uma constante tranquilização sobre a morte. Mas, no fundo, ela vale tanto para o ‘moribundo’ quanto para ‘os que consolam’. E mesmo no caso do deixar de viver, a publicidade ainda não deve ser perturbada, nem inquietada pelo acontecimento na sua ocupada despreocupação. Pois não raro se vê na morte dos outros uma inconveniência social, quando não mesmo uma falta de tato, cuja publicidade deve ser poupada.
Martin Heidegger. Ser e Tempo, §51.
A escritora Sophia de Mello Breyner Andresen e o filósofo Martin Heidegger descrevem, por meio de recursos expositivos bem diferentes, uma mesma atitude geral comumente assumida por uma pessoa ante o desvelamento de sua própria mortalidade a partir da constatação da morte ou do adoecimento mortal de uma outra pessoa. Qual alternativa melhor descreve essa atitude?
O enfrentamento heroico do absurdo existencial contido na morte.
O respeito silencioso às tradições culturais voltadas ao morrer.
A empatia antecipadora com os mortos, participando de sua dissolução existencial.
A fuga acalmadora, que encobre o sentido existencial da mortalidade.
A perda da sensibilidade, de modo a nem mesmo poder perceber a ocorrência da morte.
Resolução
A resposta indicada está correta: trata-se da “fuga acalmadora, que encobre o sentido existencial da mortalidade”. Essa atitude consiste em afastar a consciência de que a própria vida é finita. Não é uma fuga física da morte, mas uma tentativa de evitar a inquietação provocada pelo reconhecimento de que ela é uma possibilidade própria e inevitável, não apenas algo que acontece com os outros.
No poema, a voz que se dirige à morte reconhece sua presença nos “caixões de chumbo”, mas reage dizendo: “Mas viro o meu rosto / Pois não te compreendo”. Virar o rosto expressa a recusa de encarar aquilo que a morte alheia revela sobre a própria condição. Ao chamar a morte de “Um pesadelo” e “Uma coisa inventada”, a voz do poema procura afastá-la de sua experiência. As imagens de vitalidade da natureza, como as rosas, o trigo, o vento e a luz, ajudam a sustentar esse afastamento.
Heidegger descreve uma atitude semelhante nas relações cotidianas. Os que acompanham o moribundo procuram convencê-lo de que escapará da morte e retornará às suas ocupações. No comportamento analisado pelo filósofo, esse consolo encobre o reconhecimento da própria mortalidade. Por isso, a “constante tranquilização” vale tanto para quem está morrendo quanto para quem consola: também estes evitam confrontar sua finitude. Ao tratar a morte alheia como uma “inconveniência social”, preservam uma rotina que não deve ser perturbada por essa consciência.