As plantas viam o jardineiro como as plantas vêem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora.
Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.
Seguiam‑no com o seu olhar sem julgamento, alheias a que, todas as manhãs, Celestino acordava por elas. Vigiavam os seus passos, pressentiam a sua presença, alegravam‑se de o ver, conheciam as suas rotinas. Sem que por um instante lhe sentissem a falta, ou se afligissem com as suas ausências ocasionais.
Djaimilia Pereira de Almeida. A visão das plantas.
Considerando o trecho citado, depreende-se que o “olhar sem julgamento”
expressa a piedade do jardim diante da condição de Celestino, que se encontra próximo da morte.
expressa o terror das plantas por serem cuidadas por um criminoso que carrega atos extremos de violência praticados em seu passado.
evidencia que a natureza está alheia às ações e sentimentos humanos, existindo à revelia da humanidade.
é a retribuição ao cuidado cotidiano que as plantas recebem, reconhecendo que Celestino se redimiu de seu passado.
evidencia a integração do jardineiro com o jardim, na medida em que dependem naturalmente um do outro para sobreviverem.
Resolução
A resposta indicada está correta. O “olhar sem julgamento” significa que as plantas não avaliam moralmente o jardineiro nem correspondem ao amor que ele lhes dedica. A natureza é apresentada como independente das ações e dos sentimentos humanos.
Isso aparece em “Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino”. Para as plantas, o passado de Celestino não altera a relação com os cuidados recebidos: elas não o condenam nem o perdoam. Da mesma forma, tratar o regador “à semelhança da chuva” mostra que elas recebem a água sem atribuir um significado afetivo à intenção de quem as rega.
O florescimento também não representa agradecimento ou uma tentativa de “meterem conversa com o jardineiro”. Embora o narrador atribua às plantas comportamentos humanos, como olhar e alegrar-se, ressalta que elas não sentem falta de Celestino nem se afligem com suas ausências. Assim, existir “à revelia da humanidade” significa, nesse contexto, seguir a própria existência sem se orientar pelos valores, pelas expectativas ou pelos sentimentos humanos.