Na documentação jesuítica quinhentista, há constantes referências ao desejo dos índios de entregarem seus filhos para que fossem ensinados pelos padres. Talvez o ensino das crianças indígenas pudesse representar, também, uma possibilidade de estabelecer alianças entre grupos indígenas e padres, revelando outra dimensão da evangelização das crianças como 'grande meio' para se converter o gentio. É difícil determinar ao certo qual foi a imagem a respeito dos portugueses construída pelas várias tribos indígenas e, principalmente, dos religiosos da Companhia de Jesus, mas a construção de alianças, a partir das crianças (os índios dando seus filhos), pode ter constituído uma possibilidade frutífera de relacionamento para alguns grupos.
Rafael Chambouleyron. “Jesuítas e as crianças no Brasil quinhentista”. In: Mary del Priore. História das crianças no Brasil. São Paulo: Contexto, 1999.
Com base no excerto, é correto afirmar:
A aliança entre grupos indígenas e padres implicava total submissão dos primeiros aos segundos.
A catequização das crianças significava uma estratégia de construção de relacionamento entre os povos envolvidos na colonização portuguesa.
A documentação evidencia a imagem que as várias tribos indígenas tinham a respeito dos portugueses.
As ações pedagógicas visavam preparar os indígenas para a administração colonial.
A instrução religiosa era o único objetivo no ensino de crianças indígenas.
Resolução
A afirmação está correta porque o excerto apresenta a catequização das crianças como uma prática que tinha uma finalidade religiosa, mas também podia criar alianças entre indígenas e jesuítas. Catequizar significa ensinar a doutrina católica com o objetivo de converter as pessoas a essa religião. Os jesuítas eram religiosos da Companhia de Jesus que atuaram na colonização portuguesa.
Para os padres, ensinar as crianças indígenas era um caminho para ampliar a conversão ao catolicismo: por meio delas, poderiam alcançar outros integrantes de suas comunidades. É nesse sentido que o texto apresenta a evangelização das crianças como um “grande meio” para converter o “gentio”, termo usado na época para designar os não cristãos.
Já para alguns grupos indígenas, entregar os filhos aos padres poderia representar uma maneira de estabelecer vínculos e alianças com os religiosos. Assim, os indígenas também podiam agir segundo seus próprios interesses nessas relações. O autor fala em uma “possibilidade” para “alguns grupos”: não afirma que todos os indígenas tinham as mesmas intenções nem que a colonização ocorreu sem conflitos.